sexta-feira, 14 de março de 2014

... SÓ FALTAM OS "SPARTUCUNS" ...

Em 1954, Akira Kurosawa brindou-nos com um fantástico filme chamado "Os sete samurais".
Tratava-se, na altura, de transpor para uma pequena aldeia mexicana, a narrativa que tão brilhantemente Kurosawa tinha trazido para a sétima arte. Sturges materializava a terrível ameaça que caia sobre a pobre aldeia nas figuras perversas de Calvera e do seu bando de saqueadores, mantendo os aldeões como personagens indefesas, sem armas, sem dinheiro e sem um pingo de violência em si mesmos, restando-lhes o espirito indomável dos sete magníficos para fazer frente a tão tenebrosa ameaça.
Em inícios de 2014 (espero que prontos a defender até às últimas consequências esta pequena aldeia, plantada a ocidente da Ibéria, e que responde pelo nome de Portugal), um grupo de setenta notáveis, possivelmente inspirados em Kurosawa e Sturges, subscreveu um manifesto apelando à "reestruturação responsável da dívida" portuguesa, segundo notícias publicadas esta semana.
Sendo uma iniciativa a louvar em todos as suas dimensões, não quero deixar de realçar três essenciais, que se tratam da unidade e da harmonia com que setenta pessoas dos mais diversos quadrantes políticos, sociais e económicos se juntam para batalhar por uma causa comum, da assertividade com que é elaborado este manifesto e da coragem com que se afirma uma alternativa ao ruinoso caminho atual.
No entanto, não posso deixar de tecer dois comentários muito breves:
1º É extraordinário como um grupo de setenta notáveis, que acredito expressar tão bem um dos principais vetores da opinião de uma maioria qualificada de portugueses neste momento, encontrar-se tão arredado (ou afastado) do poder e da decisão política, facto que nos deveria levar a interrogar até que estado de debilidade se levou a democracia e a quem está neste momento entregue a governação;
2º Sem deixar de repetir que esta iniciativa é sem sombra de dúvida de louvar, ela ainda se encontra "dentro" do modelo político, social, económico e principalmente financeiro, que neste momento está a ser colocado em causa por todo o mundo, pela mais elementar não identificação das populações ocidentais (ou em processo de ocidentalização) com esse mesmo modelo;
Este último ponto requer uma reflexão muito mais profunda. Pois mais do que soluções técnicas de abate de dívida e de adiamento de pagamento de prestações, mais do que revisão das condições dessas mesmas prestações, em termos de taxas de juro e de comissões a pagar, as populações começam a despertar para a necessidade premente de um modelo político, social, económico e financeiro mais justo, mais consciente, mais sustentável, mais fraterno, mais solidário, mais comunitário, mais próximo. Populações que vão ansiando pelo dia em que os notáveis, de cada um dos países ocidentais, entendam e reflitam esse mesmo despertar nas suas iniciativas e nos seus manifestos.
Confesso que já não me recordo muito bem como acabam os filmes de Kurosawa e Sturges, mas espero sinceramente que neste remake, realizado pelo mais elementar bom senso, e desta vez materializado em setenta notáveis dos mais variados quadrantes políticos, sociais e económicos (crendo que abertos a uma nova consciência social) se consiga levar a melhor sobre as terríveis forças e interesses que ameaçam o território luso.
Por João Gil Pedreira

ACONTEÇAM “SPARTACUNS” PUROS
Senão continuaremos a ter DITADORES ou… Crasso(s) e Pompeu(s)
           

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