quinta-feira, 27 de outubro de 2011

POEMA CONTRA A RESIGNAÇÃO

A tinta com que se escreve a dor de um povo

não existe na paleta dos dias perfeitos.

É uma tinta que casa o azul do mar

com a palidez de cal das tardes sem esperança,

o verde, o ocre e a cinza com o metal do grito

que a garganta magoadamente abafa.

E quando os filhos perguntam “amanhã como será ?”,

que ninguém retome o fio da história

na enseada de assombros em que tantos sonhos naufragaram.

Condenaram-nos a responder pelo número que somos,

tornados estatística de uma raiva adormecida,

cifra negra que nos resume e derrota. Até quando ?

Então e as viagens heróicas, as naus afundadas,

as sinuosas rotas de luz, os astrolábios do espanto

e tudo o mais que se perdeu no esquecimento dos mapas ?

São perigosos os poetas na hora do incêndio da memória

com o fogo das palavras que não se rendem nem se vendem.

Agora somos a conta que ficou por pagar, colectiva e brutal,

a miséria sussurrada na aflição das noites,

a dormência dos dedos quando chega a hora

de escrever coragem na página de todos os temores.

Mas há uma pátria que se revolta dentro de nós

quando a música interrompe o sono das casas

e proclama que tudo é legítimo menos a resignação.

                                                 outubro de 2011

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